quarta-feira, 23 de maio de 2018

Dos girassóis à melancolia

sobre o meu travesseiro ninguém dorme
nem eu
me sento na cama
sobre as rendas da insônia
enquanto meus dedos se desfiam
em dores de papel perdido

o botão de uma lágrima se descostura no canto do rosto
e o dedo leva até a língua esse objeto triste
meus olhos são dois punhais cegos
cansados de desferir sonhos
minha gravata é um nó no pescoço das estrelas
minha boca é uma mancha soterrada por arestas que desejo dizer

penso em você
nas minhas mãos desfiadas
e no cansaço que é vencer cada dúvida:
     a comida de cada corvo
               que aqui dentro
                              nunca acaba

e a existência menos furiosa?
plástico endurecido numa vitrine desbotada do centro
onde olhos morrediços vão se espelhar
em meu corpo que se quebra a cada sentido
em meu coração vencido
                                               [a golpes de arco em cello
num céu adiado

 Foto: obra de Leonilson

quinta-feira, 10 de maio de 2018

5ª edição galeria A CASA: Colagens poéticas

Minhas colagens poéticas foram selecionadas para participar desta edição da galeria A CASA. Ao lado de outros(as) artistas, estarei expondo e vendendo obras originais a preços camaradas. Além disso, levarei meu livro de estréia, o Caminhão de Mudança, composto de 44 poemas. O livro estará à venda por R$ 30,00 e as colagens por preços variados.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Recital Fome de Forma

Recital FOME DE FORMA no dia 10 de março, das 19h30 às 21h30, na Casa das Rosas, Av. Paulista 37, com as participações dos poetas Roberto Bicelli e Jeanine Will. O evento é organizado pelo GEPOEX, o Grupo de Estudos de Poéticas Experimentais, formado por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Rodrigo Bravo, Maria Vitória, Josuel Santos, Tatiana Carlotti, Lais Akemi, Valéria Nassif, Clarissa Monteiro e Matheus Steinberg Bueno, com apoio de Marcelo Tápia. (arte do banner - Lilli Ferreira).

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Sobre os braços amputados da alegria


quando restar somente devaneio e lágrima
juntarei no centro da mesa
o afeto de uma década
bordado em caixa alta no silêncio do peito
e os tímidos dentes da fome
que sofregamente o espreitaram
e os olhos em castanha prece
e vigiarei com as cãs
a cadeira imensamente vazia

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Amargurama



o espelho me devolve um olhar sem saída
a paisagem vela sua natureza morta
tua voz é uma distância serenada sob a neve

as águas copiam rostos em anotações precárias
a maré sobe e atira pedras na moldura da rua
uma lágrima desenha solitária no rosto desconhecido

estás sozinho à beira do lago das tuas emoções
a indústria naval dos homens não te oferece um barco sequer
circulam bombas, granadas, estampidos
                                         [mas o teu ramalhete foi retido

um sol ainda de inverno fenece ajoelhado
sobre a seda do silêncio
a dor farfalha

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Noite para um poema



tua voz me enche de tonturas
recaio sobre a tua camisa
leio as sinopses do teu corpo

meus olhos astros desorientados
meus lábios ancoradouro de lírios
e meu pássaro que não me condena

teu olhar me desabotoa
desdobro teus papéis no escuro
            no códice do teu peito me enleio te afago
            no cálice do meu leito te estreito me afogo

lá onde o mar incita as vagas:
te quero com todos os meus navios

terça-feira, 16 de maio de 2017

Enguiço

hoje é dia de pé na pedra
mas água não tropeça
passa por um canteiro de flores
e chora
cai de uma árvore
e chove
escorre pela calçada e morre
sob o sol
hoje é dia de pé na pedra
ouve a onomatopeia da matéria
masca uma folha de coca
e arde
na boca sem língua do peixe
que morre
pelos olhos enviando sinais

hoje é dia de pé na treva
e eu não desço devagar
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