terça-feira, 18 de setembro de 2018

Sem título


o peixe se deita ao lado da faca
ouve seu fio de prata
em sua cabeça
tantas coisas queimam

o corpo inútil
as escamas penteadas
o palácio de Vênus obstruído
a tropopausa de Júpiter saqueada
os ofícios de Netuno paralisados

sobre a mesa
sobre a mesma indiferença
sobre a mesma surdez plasmada
sobre o mesmo aniquilamento de séculos
sobre a mesma pedra sem nome
sobre todas as cascas
sobretudos e casacas
sobre tudo, os coronéis de todos os lados
sobre todos, os generais opostos
sobre todas as leis dispostas
sobre todas as cláusulas pétreas
sobre a manipulação das águas
sobre a multiplicação do nada
sobre a hemeroteca dos recuados da história

envolto
                em sacos de sobras
                em emergências alheias
                em notícias de futuro
                em papéis de segunda mão

sulcado
ferido
salgado

o peixe morto
                boiando no mar de lixo dessa cidade
                fedendo no rosto da madrugada

a náusea empapando a calçada
a tarefa do oceano ainda inacabada



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