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sábado, 28 de junho de 2014

Coréia do Sul e Bélgica na POESIA



CORÉIA DO SUL
MI POEMA (Chunsu Kim)


Se dice
que mi poema es
un adorno lujoso.
Está bien dicho.
Oscar Wilde dijo que
el adorno
“no se deteriora con ningún otro sentido”.
Así es.
La mariposa, adorno de níquel, posada en el armario
no tiene predicado.
Como el sol y la luna en el cielo, mi poema
“no se deteriora
con ningún otro sentido”.
Aun a los treinta y nueve centígrados mi poema
se levanta la solapa.



Tradução:  Changmin Kim y Othón Moreno R.



***



BÉLGICA
Gherardo Perini (Marguerite Yourcenar)

«Não irei mais longe, Gherardo.
Não te acompanho mais porque o trabalho urge
e eu sou um homem velho. Sou um homem velho, Gherardo.
Às vezes, quando te entregas mais à ternura,
chegas a chamar-me teu pai. Mas eu não tenho filhos.
Nunca encontrei mulher tão bela como as minhas figuras de pedra,
mulher que ficasse horas imóvel sem falar,
como coisa necessária que não precisa de agir para ser,
e nos faz esquecer que o tempo passa porque está sempre presente.
Mulher que se deixe olhar sem sorrir nem corar
porque compreendeu que a beleza é qualquer coisa de grave.
As mulheres de pedra são mais castas que as outras,
e mais fiéis, porém, são estéreis.
Não há fenda por onde se possa introduzir nelas o prazer,
a morte, ou a semente de uma criança,
e por isso elas são menos frágeis.
Por vezes quebram-se e em cada pedaço de mármore
fica contida a sua beleza inteira, como Deus
que está em todas as coisas,
mas nada de estranho entra nelas que dilate o seu coração.
Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem,
mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.


Gherardo, não tenho filhos.
Eu bem sei que a maioria dos homens não tem propriamente um filho:
têm Tito, ou Caio, ou Pedro, e não é a mesma alegria.
Se eu tivesse um filho,
ele não se havia de parecer com a imagem que eu dele formara
antes de existir. Assim também as estátuas que faço
são diferentes daquelas que comecei por sonhar.
Mas Deus permite-se ser conscientemente criador.
Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais,
mas não teria que perguntar-me porquê.
Toda a minha vida procurei respostas a perguntas
que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore
como se a verdade se encontrasse no coração das pedras,
e espalhei as cores para pintar muralhas
como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio.
Tudo se cala, sabes, até a nossa alma —
ou então somos nós que não ouvimos.


Assim, tu partes.
Na minha idade já não se dá importância a uma separação,
mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais
se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa.
É também deste modo que se vão separando de si próprios.
Estás sentado sobre essa pedra e julgas-te ainda aí,
mas o teu ser, voltado para o futuro, não adere mais ao que foi a tua vida,
e a tua ausência já começou. É certo que compreendo
que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe.
Os homens que inventaram o tempo,
inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo
é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro
mas apenas uma série de presentes sucessivos,
um caminho perpetuamente destruído e continuado
onde todos vamos avançando.


Estás sentado, Gherardo,
mas os teus pés estão assentes no solo
com a inquietação de quem experimenta o caminho.
Estás vestido com trajes do nosso século,
que hão-de parecer feios ou simplesmente estranhos quando o século
tiver passado pois as vestes não são mais que a caricatura do corpo.
Vejo-te nu. Tenho o dom de ver através das roupas o irradiar do corpo,
que é como os santos vêem as almas, segundo penso.
É um suplício quando são feios,
mas é um outro suplício quando são belos,
dessa beleza frágil que a vida e o tempo atacam por todos os lados
e acabarão por tomar-te,
mas neste momento és dono dela e tua será na abóbada da igreja
onde pintei a tua imagem. Mesmo que um dia
o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado
onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio
o reflexo imóvel de ti.
E desse modo imobilizarei a tua alma também.


Tu já não me amas.
Se consentes em ouvir-me durante uma hora
é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar.
Ligaste-me e agora desligas-me.
Não te censuro, Gherardo.
O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido
que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.
Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces,
ao encontro de quem vais e que porventura te esperam:
aquele que eles vão conhecer será diferente daquele
que eu julguei conhecer e creio amar.
Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e,
sendo a arte a única forma de posse verdadeira,
o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.


Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas:
vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los.
Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe,
enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela.
Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo,
assim tu também não és mais para mim
do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver.


Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.»


Tradução: Helena Vaz da Silva

domingo, 22 de junho de 2014

Coréia do Sul e Argélia na POESIA


CORÉIA DO SUL
O POETA (Ko Un)


O poeta teve de chorar muitos dias e noites
antes de se tornar poeta.
Com trinta anos apenas,
o poeta já tinha chorado muito pelos outros.


Ser poeta quer dizer: estender as mãos.
Ser poeta quer dizer: consolação.
O poeta está sempre ao lado
dos aflitos, dos pobres, dos sofredores.
Neste mundo de desigualdade,
ele é irmão de todos os solitários.


O poeta nunca se encontra sozinho,
ele alberga em si toda a sabedoria do povo.


Por fim, emudecido, o poeta morre
para que renasça como poema.


Ele é, para sempre, uma estrela fiel no firmamento.




Tradução/adaptação: Luís Costa


***


ARGÉLIA
Les hors-la-loi (Nadia Guendouz)


Tu es bien caché mon coeur
Là dans ton coin
Personne ne te voit
Bien sûr tu bats
Mais on ne t’atteint pas

Dis mon coeur dis-moi
La terreur
Les bérets
Les tanks
Tout ça ne t’atteint pas
Bien sûr il y a les bâlles
Mais mon coeur
Tu crois
Tu crois aux hors-la-loi
Leur sang coule en toi
Il brûle, il brûle
Comme le feu de la flamme
Et tes larmes mon coeur
Sont indignes de toi
Tu devrais bondir
Ruer
Crier
Au lieu de pleurer

terça-feira, 17 de junho de 2014

Rússia e Coréia do Sul na POESIA


RÚSSIA
A CARTA (Marina Tsvetaeva)


Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.


Tradução: Augusto de Campos


***


CORÉIA DO SUL
What a fallen soldier says* (Mo, Yunsuk)

I chanced on a fallen soldier while wandering the hills and valleys
in a suburb south of Seoul. -

In a solitary mountain valley
I see a lone soldier lying,
wordless, motionless,
his eyes closed skyward.

In khaki uniform, badges sunlit on the shoulders,
he is the pride of the Republic, a second lieutenant.
Blood is still gushing out of his heart;
it smells more pungent than roses.
I lean over him to lament his youthful death
and listen to what he has last do say:

I have died young at five and twenty,
gone as a son of the Republic.
Fallen in a brave fight to defend my country
against the enemy invading like stormy clouds.

With my rifle, firm in hand,
shrapnel-proof helmet shielding my head,
I have never been a coward before the enemy,
Oh, no.

At the call of a greater inner voice in me
I dashed over the hills, vales, thorny bushes
and mounds of the dead.
Like Admiral Yi Sunsin, like Napoleon, like Caesar

I advanced day and night to save the nation
from disaster.
I fought to put the enemy to rout.
I wanted to march farther than the sky-limit.
I wanted to sweep them off as if in a storm.

Mother and father I have, and dear brothers, too.
And a sweet girl I love.
A budding youth of this land,
I wished to share my flowering life with those I love.
I wished to grow singing with those birds on the wing.
And I fought bravely and died.
No one knows of my death.
O my country, my love!
How the gentle wind caresses me to dry
the sweat on my brow, on my lifeless brow!
How those stars comfort my soul at night!

Dressed in the uniform of the fatherland,
I shall lie down on the grass of the vale,
setting my tired body in peace.
I shall breathe the air that fills the sky.
I fought with pride for the country dear as my mother
and died an honorable death for the nation.
Fallen dead in this obscure valley,
I shall keep eternal company with those nightingales
that weep in the dew-laden grass at night.

O wind! You nameless birds!
When you meet my poor countrymen,
give this word of mine that I ask them
to weep not for me but for the fatherland.
Birds winging freely from the spring land,
when you meet my beloved girl by any chance
at a windowside while you fly,
go and tell her to weep not over my death
bur for the glory of the Republic.
O my country, my countrymen, my sweet girl.

I go now for your happiness, leaving you
with my wish unfulfilled.
Defeat the enemy once and for all
and comfort my spirit and make up for my lost youth.
Turning back is shame worse than surrender or slavery.
Let others step out if they will.

But our Republican army,
you must fight it out till victory is won
and die in glory for this nation to prosper.
Once lost, the fatherland shall not be regained.
Look, O my country, how the storm arises!

Packs of wolves and lions charge down the hills and vales.
Will you dismiss this sorrow as mere sting of destiny?
No. It cannot be our destiny. Or let it be so,
for we are mightier than destiny. We really are.
Friends, destroy it, another enemy, with your brawny arms
with blood and soul handed down to us by our ancestors.

Fight when you must;
die when you must
to save the nation on the brink of perdition.
And let my wishes be known: Be it for the good
of the nation,
I'd gladly refuse to be put into the simplest coffin,
to lie buried in the grave.
Let the wild wind flail my frame;
let maggots feast on my flesh.
I shall be a handful of dust in the vale of my country.

In a solitary mountain valley
I see a lone soldier lying.
wordless, motionless,
his eyes closed skyward.

In khaki uniform, badges sunlit on the shoulders,
he is the pride of the Republic, a second lieutenant.

Blood is still gushing out of his heart;
it smells more pungent than roses.
I lean over him to lament his youthful death
and listen to what he has last do say.



* Based on the poet's experience during the Korean War.

Tradução: Jaihiun J. Kim
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